Adoro música. E o jazz é um dos meus géneros preferidos. Talvez mesmo o preferido. Não resisto a um bom ritmo. Não importa o género, tem é de ser bom. Tem de me tocar.
Paradoxalmente detesto dançar, pelo menos em público. Basta apenas uma pessoa a ver para me inibir e eu ficar como que com os pés colados ao chão. Para mim, salsa só se for para temperar a comida. Acontece, porém, que às vezes me surpreendo a mim próprio a dançar.
Aconteceu muito recentemente. Tinha a cozinha só para mim. Todinha. E também os quartos, o corredor e a sala de onde me chegava a voz do Caetano Veloso, numa obra-prima gravada em 1986 e intitulada Totalmente Demais.
O Caetano canta
Linda como um neném
Que sexo tem, que sexo tem?
Dou dois passos para a direita e agarro o avental de ganga. O frango que jazia já limpo sobre a volumosa tábua de cozinha parece querer acompanhar o ritmo.
Pela maneira como abana o rabo revela a orientação do jantar.
Namora sempre com gay
Que nexo faz tão sexy gay
No almofariz, já misturei alho, pimentão, louro e sal com azeite e um pouco de margarina. (Alternativamente, quando se está com pressa, pode usar-se 1 caldo Knorr de galinha, mas não é bem a mesma coisa).
...e roda...
Rock"n"roll?
Pra ela é jazz
O galináceo rende-se à investida. A faca fica na gaveta. Uso apenas as mãos. Esfrego-o com o tempero. Outro passo para a direita...
Já transou
High-life, society
Por fora e por dentro.
...o tronco também mexe...
Bancando o jogo alto
Com um palito pico um limão . Dois passos para a esquerda e roda.
O Caetano canta baixinho, quase segreda:
Totalmente demais
Esperta como ninguém
Só vai na boa
Só se dá bem!
Agarro o frango e, depois de uma pirueta, deito-o num pirex previamente untado com margarina.
Na lua cheia tá doida
Apaixonada, não sei por quem
Agitou um broto a mais
Nem pensou, curtiu
Já foi!
Foi só pra relaxar
O Caetano volta a segredar:
Totalmente demais
O limão deixa-se introduzir com facilidade no interior do frango
Uuuuuu uuuu uuuu...
Agora é só deixá-lo suar dentro do forno e regá-lo de vez em quando com o molho que vai largando.
- Que cheirinho! A Rosa acaba de chegar a casa. Ela radiante e o frango com a pele tostada e a carne macia.
Sabe sempre quem tem
Faz avião, só se dá bem!
Se pensa que tem problema
Não tem problema
Faz sexo bem!
Uuuuuu uuuu uuuu....
Totalmente demais
Não queria deixar passar de hoje uma referência à minha mãe. Afinal, este espaço é-lhe dedicado. Há uns meses cravei-lhe indecentemente um livro de receitas. Pedi-lhe que o escrevesse. E ela, quando podia lá ia escrevendo. E anotou as suas receitas de sempre ou as que ela costuma aplicar imprimindo-lhes o seu toque pessoal. Por meu lado, eu procuro seguir-lhe as pisadas.
Foi nessa senda que, no outro dia, proporcionei a um frango - felizmente, já vinha morto e limpo - um dos mais belos destinos com que um jovem galináceo, acabado de chegar da província, pode sonhar: ir parar directamente à grossa e espaçosa tábua de cozinha estrategicamente colocada sobre o tampo de mármore preto da mesa.
A luz da lâmpada e o vermelho dos móveis de cozinha reflectiam-se na lâmina cintilante. Implacável, a faca executou o sua tarefa. O frango ficou feito em pedaços e os cogumelos frescos (uma embalagem inteira) convertidos em tiras.
A Rosa já podia ir preparando umas caipirinhas, se já tivesse chegado.
Preparo um Martini com manjericão, para ganhar coragem, antes de começar a passar os pedaços de frango por farinha.
Agora está na altura proporcionar algum conforto à pobre ave. No fundo do meu melhor tacho já começa a fervilhar um pouco de azeite (na sua receita a minha mãe diz margarina, mas eu prefiro sempre o azeite, digam o que disserem) e começo a fritar o frango, que, devido ao calor, fica com sede.
Dou-lhe meio copo de água. Ele reclama e recusa-se a brindar. Diz que brindes com água dão azar. Eu discordo, mas sirvo-lhe 1 cálice de Porto. Brindamos. Ele sugere outro brinde, mas desta vez prefere, conhaque. Eu mantenho-me nos Martinis, à falta de água tónica para o gin. E chegado a esta parte, já estou a prestar homenagem ao Mário Henrique Leiria e ao Mário Viegas. O raio do frango, já com um grão na asa, ainda tem estômago para um uísque e para um remate final com um copo de vinho branco.
Quando o animal já está completamente grosso, adiciono rapidamente os cogumelos e tempero com sal, pimenta e noz moscada. Tapo o tacho e deixo estufar...
A minha mãe recomendou que se adicionem natas meia hora antes de servir. Eu tento resistir-lhes (por causa do colesterol), mas não consigo. Talvez para a próxima tente sem.
Ainda se podem adicionar amêndoas ou pinhões.
O frigorífico revelou um tesouro: uma embalagem de cogumelos. Ainda dentro do prazo. Hmmmmmmm.
Numa tábua de madeira, uma longa faca das melhores e inoxidáveis famílias traçam já o incontornável destino dos ditos fungos.
-- É melhor pores o avental. A Rosa é solícita e puxa-me o avental de ganga por cima da cabeça. Fá-lo sempre antes de pôr a água ao lume para as massas e antes que eu ponha nódoas na roupa. Cozê-las é, normalmente, uma tarefa dela. Ninguém as consegue cozer no mesmo ponto, aquele ponto. Pelo menos eu não me atrevo, nunca, a usurpar-lhe as funções.
No wok, colocado a postos, sorriem já um ou dois dentes de alho, finamente cortados. Chapinham num fio do mais fino azeite virgem de Moura.
Quando o lume brando se torna insuportavelmente intenso para os alhos e, precisamente no momento antes de começarem a ficar castanhos, junto-lhes os cogumelos. Deixo-os aquecer um bocado, mexendo-os com uma colher de pau, que nunca deve repousar durante todo o processo.
Adiciono pimenta e noz moscada. E sal para fazer os cogumelos suar. Rega-se com Xerez (seco ou doce, depende do estado de espírito) e em pouca quantidade, sempre dependente do líquido que os cogumelos largam.
Entretanto polvilho tudo com coentros picados (congelo-os normalmente inteiros e frescos. Um dia destes, revelarei aqui como se tem sempre ervas "frescas" e com aroma).
Entretanto, as farfalle cozidas e escorridas. É só juntá-las aos cogumelos no wok e mexer tudo em lume muito brando.
A ter em conta: os cogumelos perdem volume - encolhem. Por isso, é preciso ter atenção às quantidades. No final, não devem estar propriamente afogados em molho, mas também não devem estar totalmente secos.
O que é realmente bom nesta receita é que, se for necessário, pode ser repetida todos os dias com outras massas e outros produtos da horta. Por exemplo, penne com brócolos salteados ou fusilli com espargos verdes , entre, provavelmente, milhares de outras combinações. Por outro lado, não demora tempo nenhum a preparar. O jantar fica resolvido em quaisquer 20 minutos. O ideal para aqueles dias tão neurativos – ou será neurógenos? há alguma expressão portuguesa para causador de neura? Rosa ajuda-me! – em que nem apetece ir jantar fora.
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