As expectativas e a ansiedade cresciam à medida que o autocarro se afastava de Panjim, buzinando um código Morse que só os automobilistas indianos entendem. Ao terceiro dia, a nossa experiência goesa ameaçava naufragar numa tempestade de decepção e ficar encalhada em praias superlotadas a cederem à pressão do betão e do lucro especulativo.
Para trás ficava Colva e Dona Maria, que se assemelhavam ao pior Algarve, só que ao nível de um país de Terceiro Mundo com mais de mil milhões de habitantes. Serviu-nos de consolo ver famílias inteiras a tomarem banho vestidas nas ondas do Mar Arábico. A Índia - e, deixemo-nos de lusas ilusões, Goa é Índia - é sobretutudo um espectáculo de cor e luz. Ver, ao final de uma tarde de domingo, centenas de mulheres de saris coloridos dentro de água é, no mínimo, enternecedor. E descobrir que uma t-shirt, comprada semanas antes em Lisboa como sendo cinzenta, afinal é azulada, deixa-nos perplexos.
Tínhamos
também já chegado à conclusão que a paradisíaca Anjuna não passa de uma
alucinação de freaks encharcados em ácidos e charros que por lá
tinham passado. Paradisíaco nunca. Um anti-climax autêntico.
Havia
ainda as melgas de duas
patas que não largam o turista, para elas meros porta-moedas andantes. Não há
repelente ou rede-mosquiteiro capazes de os manter à distância. Quanto mais
turístico pior.
—
Ten rupees!...
A miséria é grande e está à vista de todos, mesmo na «rica» Goa.
O
autocarro voltou a apitar ao atravessar a ponte sobre o rio Zuari. Íamos a
caminho de uma estação dos lendários caminhos de ferro indianos. Íamos nervosos
—
e se o Sul de Goa
fosse tal e qual o litoral Norte e Centro ou ainda pior? A viatura apinhada
arrastava-se aos solavancos a uns prováveis 33,3 km/h (a
velocidade média dos transportes terrestres nesta zona da Índia) para nos
largar em Margão.
A
ideia era deixar parte da bagagem na estação e seguir noutro transporte. Quis
o destino que daí a uns minutos parasse, ali mesmo à nossa frente, um comboio
com destino a Canacona, terra situada a 2 km de Palolem, praia no extremo sul do
Estado de Goa que tínhamos eleito como destino.
Entramos
no caos da carruagem, com os tectos crivados de ventoínhas e com um funcionário
que, apesar do calor, vendia chá e café quentes.
— Tchai, tchai, garam tchai. Coppi, garam coppi! (era assim que soava)
Sentimo-nos como extraterrestres, toda a gente olhava para nós. Rapidamente descobrimos porquê, sendo de estatura normal para os padrões europeus, verificámos que ambos estávamos a ocupar lugares onde normalmente caberiam quatro indianos. Famílias inteiras em viagem no calor produzem uma algazarra que só é abafada pelo som de rodas de ferro a rolar sobre carris de ferro e pelo pregão do homem do chá.
E as cores. Outra vez as cores e aquela luz. As pessoas, tão curiosas em relação a nós como nós em relação a elas, sorriam e metiam conversa aqui e ali. Não para nos vender o quer que fosse, só para nos conhecer.
Quanto
mais nos afastamos dos centros turísticos, mais genuína se torna esta Índia.
Duas horas e 66 km depois do embarque subimos para a caixa aberta de um triciclo
motorizado amarelo, que nos levou até à guesthouse Maria, em Palolem
Beach, uma casa gerida, com a ajuda de Santo António, pelo casal Maria e José
Rebello.
Lisboa
Paragens
Outras cozinhas...
Atravessando o
Atlântico
... e adegas
Curiosidades